Quando dar mais dias de férias é um acto de gestão

São difíceis de encontrar – e na maioria dos casos só a contratação colectiva garante a generosidade dos patrões –, mas há empresas em Portugal que voluntariamente concedem mais férias do que as previstas na lei. Confira os argumentos dos gestores.

Motivar e satisfazer os trabalhadores, compensar o seu esforço e empenho, equilibrar a vida familiar e profissional, reconhecer as carreiras longas na empresa ou simplesmente uma questão de justiça face ao corte dos feriados e ao que se passa noutros países. Estas são as principais motivações apontados ao Negócios por empresas que em Portugal concedem mais do que os 22 dias previstos na lei geral ou na contratação colectiva.

O prazo para marcar os dias de descanso termina hoje e o tema voltou à agenda com a proposta do Bloco de Esquerda de aumentar de 22 para 25 os dias mínimos no sector privado. Mas em vez de depender das faltas justificadas, como sucedia até à revisão de 2012 do Código do Trabalho, a segunda maior bancada de suporte ao Governo no Parlamento quer garantir três dias adicionais, independentemente da assiduidade.

Caso o diploma seja aprovado, os mais de 200 trabalhadores da BLIP nem vão dar pela diferença. É que esta tecnológica instalada no centro do Porto já concede "voluntariamente" 25 dias de férias, que o director, Hélder Martins, acha "um número justo, especialmente com o último corte de feriados" (entretanto repostos) e que "está também em linha com alguns dos países europeus mais evoluídos neste tipo de políticas", citando o Reino Unido, Finlândia, Islândia e Dinamarca.

Esta regalia "não afecta, de todo, a competitividade" da empresa que desde 2012 é um dos "hubs" tecnológicos da britânica Betfair e que tem no escritório um saco de boxe, consolas, trotinetes, matraquilhos e uma charrete para reuniões a dois. É "apenas um pouco mais exigente em termos de planeamento, porque há mais tempo de férias para conciliar, precisamente para garantir que a produtividade e tempos de resposta não são afectados", reconhece o gestor. Somado a outros, Hélder Martins frisa que o benefício contribui para a "elevada taxa de satisfação" dos quadros e a "solidificação de uma cultura de profissionalismo e responsabilidade, misturada com alegria e companheirismo".

Convencido de que "os colaboradores e as empresas dão na medida que recebem" e das virtudes do "equilíbrio entre o ambiente profissional e pessoal dos colegas", Marco Souta atribui 25,5 dias – o meio dia é gozado no aniversário – às 36 pessoas que lidera nos escritórios de Lisboa, Porto e Leiria.

O director da filial da financeira alemã Grenke, especializada no aluguer operacional ("renting") de tecnologias de informação, fala numa "forma de reconhecimento do esforço e empenho" dos colaboradores. A única desvantagem é "momentaneamente ter uma redução de recursos em determinados períodos associados a esses dias adicionais, mas que acaba por ser gerido em equipa".

O Montepio tem um sistema de marcação de férias ("employee self-service" e "manager self-service") que atribui percentagens de permanência dos funcionários para garantir um número de presenças essenciais por área funcional e, em simultâneo, gerir a distribuição da marcação de férias. A directora de Recursos Humanos, Catarina Horta, diz que é assim que evita constrangimentos operacionais pelo dia extra após 15 anos de antiguidade ou dois dias adicionais após duas décadas na instituição. "Um benefício muito valorizado" e uma "forma de reconhecer e compensar carreiras longas", sustenta a responsável, que soma a 25 dias de férias previstos no contrato colectivo do sector bancário.

Generosidade colectiva

A avaliar pela ronda do Negócios, poucas são as empresas que, por opção, dão mais dias de férias. E na maioria dos casos relatados, o acordo colectivo é a garantia da generosidade patronal. É por isso que, desde 2001, os 6.700 trabalhadores da EDP têm 24 dias de férias, que dão "maior disponibilidade e equilíbrio para a vertente pessoal e reforça a sua participação familiar, social e cultural". "Permite ainda maior recuperação física e intelectual da prestação de trabalho, constituindo-se como factor adicional de motivação e compromisso por parte dos colaboradores", adita fonte oficial.

Em Santa Maria da Feira, os 75 operários da JJ Heitor gozam mais três dias só se forem assíduos, como prevê o acordo colectivo do calçado. Joaquim Heitor, que exporta sapatos de senhora, nega "problemas de competitividade" e assegura que a continuidade da laboração é assegurada com coordenação na marcação das férias.

Mesmo obrigado pela lei, o empresário nortenho defende os dias adicionais de férias por estimular a motivação, bem-estar e equilíbrio entre a família e o trabalho: "Só assim conseguimos um crescimento do negócio sustentado e sólido".

Infraestruturas de Portugal "harmoniza" três regimes de férias

Na Infraestruturas de Portugal, que resultou da fusão da Estradas de Portugal e REFER, vigoram três regimes de férias distintos para os 3.779 trabalhadores. Tudo devido à "junção das diferentes realidades em termos de contratação laboral" e ao "princípio de neutralidade da situação laboral existente pré-fusão", esclareceu fonte oficial. A empresa liderada por António Ramalho disse ao Negócios que a "harmonização dos diversos regimes está ainda em desenvolvimento". Os provenientes da REFER têm 25 dias, os que se regem pelo Código do Trabalho têm 22 e os funcionários públicos mais um por cada 10 anos de empresa.

Fonte: http://www.jornaldenegocios.pt/
Data: 15/04/2016