Número de empresas exportadoras encolhe pela primeira vez desde 2009

O universo de empresas que vendem para o exterior recuou no ano passado, algo que não se verificava desde o início da crise internacional. E a queda de 3,5% é maior do que a registada em 2008 e 2009.

As exportações continuaram a crescer no ano passado, mas o número de empresas que vende os seus produtos para o exterior desceu, algo que acontece pela primeira vez desde 2009. De acordo com os dados enviados ao PÚBLICO pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2015 estavam contabilizadas como exportadoras 21.631 empresas, o que representa uma descida de 3,5% face ao ano anterior.

Esta é a primeira vez que o universo das exportadoras baixa desde 2009, ano em que a crise financeira iniciada nos Estados Unidos provocou uma forte contracção no comércio internacional. No entanto, nessa altura a descida do número de empresas foi de 3,1%. Em valores absolutos, entre novas exportadoras registadas e as que deixaram de vender para o exterior, a diminuição foi de 584 empresas entre 2008 e 2009, número que subiu para 797 entre 2014 e o ano passado.

Não há informações que permitam saber o que aconteceu a estas 797 sociedades, cuja maioria deverá ser composta por microempresas, podendo ter encerrando as portas ou passado a depender apenas do mercado interno. A saída para o exterior foi, aliás, a tentativa de escapatória para muitas empresas, depois da enorme contracção do consumo em Portugal (cujo auge foi o ano de 2012). Apesar da estratégia de aposta nos mercados externos, muitas empresas vendem para apenas um país, o que as deixa vulneráveis a alterações conjunturais.

Dados do INE (referentes a 2014) demonstram que, do total das exportadoras baseadas em Portugal, 63,9% vendem os bens que produzem para apenas um mercado (com um peso de 7,6% no total do valor transaccionado). Por outro lado, apenas 4% das microempresas são exportadoras, peso que sobe para 22% no caso das pequenas e médias empresas (PME).

O caso de Angola assume-se como o mais emblemático. Este era o quarto maior cliente de Portugal, mas a baixa do preço do petróleo e dificuldades em conseguir ter divisas internacionais para pagar as importações, aliadas à quebra do consumo, fizeram com que passasse para o sexto lugar. Em 2015, as vendas para este mercado diminuíram mais de mil milhões de euros, afectando os negócios de muitas empresas portuguesas (confrontadas também com atrasos nos pagamentos e dificuldades em repatriar capitais). Entre Janeiro a Setembro do ano passado, havia 3605 empresas portuguesas cujo único mercado externo era Angola, o que representa quase menos 1000 face a idêntico período do ano anterior.

Para o presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), Paulo Nunes de Almeida, “tão ou mais importante do que a evolução do número de empresas exportadoras será o valor exportado”, realçando que os dados têm sido favoráveis. No entanto, destaca que, “dada a forte concentração do valor das exportações num número substancialmente baixo de empresas, importa promover um esforço de alargamento da base exportadora, colocando mais empresas a exportar (em número), mas também em valor”.

À queda das vendas para Angola junta-se o recuo para o Brasil (-11% em 2015) e, mais recentemente, para a China, sinal das dificuldades que as economias emergentes estão a atravessar. Isso, por sua vez, tem também reflexo nas empresas exportadoras e na sua capacidade de cumprir os pagamentos dos empréstimos.

Dívidas a subir

De acordo com os dados mais recentes do Banco de Portugal, referentes a Fevereiro deste ano, o rácio de crédito vencido das exportadoras (que continuaram a receber dinheiro dos bancos mesmo no período de maior restrição de crédito, mas com juros elevados) voltou a subir, atingindo os 5,8% do total financiamento concedido pelos bancos. Em Dezembro de 2014, este indicador estava nos 2,9%, evidenciando assim uma forte deterioração ao longo do ano passado.

Para Paulo Nunes de Almeida, estes dados poderão “ter origem na situação menos favorável que se vive em alguns dos principais mercados de destino das exportações portuguesas”. Destaca, no entanto, que o rácio “está num patamar de incumprimento muito inferior ao valor médio global”. Em Fevereiro, o rácio de empréstimos em incumprimento das empresas em geral era de 16,2% (em Dezembro estava nos 15%). Com Luísa Pinto


Fonte: https://www.publico.pt
Data: 13/04/2016