Como mudou a economia? Menos indústria e construção, mais comércio e banca

A passagem da troika por Portugal não rompeu com as tendência anteriores de evolução da estrutura da economia. A indústria e a construção continuaram a perder peso, o sector financeiro e o comércio e turismo ganharam. Inversão parece haver só no Estado.

A economia portuguesa já iniciou a tão desejada transformação estrutural que a tornará mais competitiva?  À primeira vista, é difícil de a encontrar. Os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) para o período entre 2010 e 2014 apontam para a continuação de tendências que já vinham de trás: a perda de peso da indústria, da construção e dos serviços do Estado e um ganho relevante da banca e do comércio e actividades turísticas.

Entre 2010 e 2014, período da troika em Portugal, o Valor Acrescentado Bruto (VAB) do comércio, hotelaria e restauração passou de um peso de 18,1% para 20% do VAB total da economia. Uma tendência semelhante à que se observou no sector financeiro, seguradoras e imobiliárias, cuja percentagem no VAB passou de 17,2% para 18,4%.

"Era uma fantasia achar que a economia se podia transformar em quatro anos."
Pedro Lains Professor do ICS

Em sentido contrário, o destaque negativo vai claramente para a construção. Entre 2010 e 2014, o seu VAB cai de 5,8% para 4% do total, mantendo uma tendência que já vinha de trás. Outro ramo de actividade que continua a perder relevância é a indústria, um sector tipicamente exportador, cujo peso do VAB é hoje 0,7 pontos percentuais mais baixo (12,9%).

Também nos "outros serviços", dominados pela Administração Pública (educação, saúde, defesa, apoio social), se regista uma perda de importância na economia, aqui em clara inversão face ao que passado. O seu VAB passou de 31,6% para 29,8% no final do programa de ajustamento.

Um dos objectivos assumidos pelo Governo e pela troika era mudar a estrutura da economia portuguesa. Pedro Passos Coelho tem sublinhado a "agenda de transformação estrutural" e o momento de viragem "histórico", referindo-se normalmente ao excedente comercial de bens e serviços alcançado por Portugal em 2013 e mantido em 2014.

A acompanhar este discurso está a ideia de que alguns ramos de actividade tinham um peso excessivo, como a construção ou a restauração. O desejável seria, por exemplo, de-senvolver a indústria e a agricultura. Porquê? Porque são sectores de natureza transaccionável. Isto é, tendencialmente exportadores. Assim, o seu crescimento favoreceria mais as vendas ao exterior e o equilíbrio externo do País.

No entanto, ao olhar para os dados do INE, não se observa um ganho do peso desses sectores. A agricultura manteve o peso que tinha na economia nacional e a indústria continuou a perdê-lo, a um ritmo ligeiramente inferior (ver infografia nas páginas ao lado). A este nível, há boas notícias do lado do turismo, mas ainda não é possível desagregá-lo em 2014 (está integrado com o comércio e restauração). A construção prosseguiu o seu caminho de deterioração, o sector financeiro, o seu crescimento. A grande alteração que se observou foi no Estado.

"Era uma fantasia achar que a economia se podia transformar em quatro anos", critica Pedro Lains, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. "A troika seguiu uma lógica de planificação quase marxista. Foi uma agenda política com erros económicos. E tentaram usar a legislação e não o investimento para mudar a economia."

Até os números das exportações mostram uma realidade pouco optimista. Apesar do crescimento das vendas ao exterior, a percentagem das mesmas que têm um nível "alto" ou "médio alto" de intensidade tecnológica caiu em comparação com 2010.

Queda de emprego na indústria e agricultura

Se olharmos para os dados do emprego, as conclusões não são muito diferentes. A agricultura, a indústria e a construção perdem postos de trabalho entre 2011 e 2014, assim como peso no total do emprego. Até "o alojamento e a restauração", apesar do bom desempenho em 2014, perde empregos face a 2011 (o seu peso estagna). Nesse período, as actividades de "saúde humana e apoio social" e de "informação e comunicação" foram as que mais peso ganharam, seguidas pela Administração Pública e actividades administrativas.

"Desde 2008, os sectores que criaram emprego são o imobiliário, o Estado e os transportes. Os outros destruíram", adianta Ricardo Paes Mamede, professor do ISCTE. "O turismo, por exemplo, tem feito as exportações crescer, mas não teve mais contratações em comparação com 2008. Estará a observar-se um melhor aproveitamento da capacidade instalada."

Ainda assim, Paes Mamede identifica que a economia acabou por se reestruturar no sentido em que "as empresas pouco produtivas foram varridas do mercado". Uma ideia com a qual Paula Carvalho concorda. A economista-chefe do BPI nota que "as empresas menos viáveis desapareceram e deram lugar a outras eventualmente mais flexíveis e ajustadas ao novo contexto, mais competitivo". "Esse deverá ser o motivo de queda do emprego em sectores que são tipicamente transaccionáveis como o caso da indústria e mesmo da agricultura", acrescenta.

-----------------

E se recuarmos duas décadas?

Se compararmos 2014 com 1995, as mudanças são mais visíveis. Em 20 anos, a agricultura viu o peso do seu VAB cair para menos de metade. O VAB da indústria afundou de 18,8% para 12,9% e a construção caiu de 6,5% para 4%. Por outro lado, o VAB das actividades financeiras disparou de 13,8% para 18,4%. "É uma transformação normal em economias avançadas. A indústria e a agricultura perdem peso e os serviços e sector financeiro ganham", diz Lains. No emprego, a comparação é mais complexa (devido à reclassificação dos sectores só é possível recuar até 2000). A construção é dizimada, com o número de trabalhadores a afundar mais de 50% face a 2000. A indústria cai 32% e a agricultura 38%. Os que mais cresceram foram a "saúde humana e apoio social" (52%) e os transportes, armazenamento e comunicação (51%).

---------------

Raio-X aos sectores que mais mudaram

A economia portuguesa não ficou indiferente à passagem do tempo.
Os números do VAB, do emprego e as explicações dos representantes dos sectores ajudam a perceber o que realmente se passou.

Indústria foi o sector que mais caiu

Em 1996, a indústria atingiu o seu maior peso na economia, com 19,5% do VAB total, perdendo sucessivamente relevância  até 2009. Depois de uma ligeira recuperação em 2010, a indústria voltou a seguir uma tendência descendente. O emprego mostra uma realidade igualmente preocupante. Entre 2000 e 2014, a indústria transformadora perdeu 355 mil postos de trabalho (-32,4%). Este sector é especialmente relevante, uma vez que é visto como uma trave-mestra para exportar mais.

Agricultura estagnada desde 2007

O sector agrícola sofreu uma das maiores contracções desde 1995 mas, ao contrário da indústria, está estagnado desde 2007. O seu VAB representava 5,4% do VAB total e está hoje nos 2,3%. "A produção agrícola não tem caído, tem aumentado", sublinha João Machado, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP). Se a agricultura perdeu peso "não foi porque não crescemos, foi porque os outros cresceram mais", acrescenta. "É natural que a agricultura não tenha crescido ao ritmo do resto da economia." No que diz respeito ao emprego, a agricultura teve no final de 2014 o pior trimestre de sempre. Em comparação com 2000, desapareceram 246 mil empregos do sector. João Machado justifica essa evolução com a substituição de trabalhadores menos qualificados por "maquinaria e mão-de-obra qualificada".

Comércio ganha relevância

Depois de ter perdido peso entre 2002 e 2008, o comércio voltou a ganhar relevância, sendo em 2014 o mais importante (se excluirmos os "outros serviços", onde estão muitas das actividades do Estado). A análise deste sector é mais complexa, uma vez que junta a reparação de veículos, o alojamento (turismo) e a restauração. O que significa que alguns sectores podem ter comportamentos diferentes. No emprego, o comércio por grosso e a retalho caiu 10%, menos 73 mil trabalhadores.

A implosão da construção

Os números são impressionantes. O peso do VAB da construção passou de um máximo de 7,7% em 2001 para 4% em 2014. O emprego caiu 54% nos últimos 15 anos (menos 318 mil pessoas). "Nos anos 80 entrámos na UE, aproveitámos os fundos comunitários e beneficiámos da privatização da banca. Foi o ‘boom’ da construção", lembra Reis Campos, presidente da Confederação Portuguesa da Construção e do Imobiliário. Segundo os dados do sector, em 2002 foram licenciados quase 96 mil novos fogos. No ano passado? Menos de oito mil. O peso do investimento da construção no PIB passou de 16,3% para 7,5%. "Não há dúvida de que a necessidade de infra-estruturas e a procura de casas não é o mesmo", acrescenta Reis Campos. Ainda assim, o sector continua a valer metade do investimento total nacional. "O futuro está na reabilitação urbana."

Turismo cada vez mais importante

Uma parte importante do crescimento do emprego em 2014 veio do turismo (para o qual não há dados sobre o VAB), cada vez mais importante na economia. Ainda assim, se recuarmos a 2011, o sector de restauração e hotelaria perde emprego face a esse ano (menos 10 mil postos de trabalho). "O aumento do emprego é mais associado a 2014", reconhece Luís Veiga, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal. Embora ache que ainda há margem para crescer muito, alerta que "nem tudo corre bem na hotelaria".

Fonte: Jornal Negócios Online
Data: 12/03/2015