Há €655 milhões de fundos europeus para investir em Portugal até 2020

De €750 milhões, só €95 milhões foram a  concurso. "Há um atraso significativo", aponta a Associação de Capital de Risco.

Nem tudo é branco ou preto na vida. Na indústria do capital de risco também não. Há o verso da medalha: o número de sociedades de capital de risco e de fundos duplicou nos últimos dez anos em Portugal e a taxa de crescimento dos ativos sob gestão cresceu cerca de 15% ao ano. Mas há o reverso: o volume de fundos levantados nos últimos três anos diminuiu.

"Continua a haver atrasos muito significativos nos processos de distribuição dos fundos que o Estado tem para colocar no sector, nomeadamente na área dos fundos estruturais. Estavam previstos €750 milhões para os chamados instrumentos financeiros para a indústria de capital de risco. Foi aberto um concurso para €95 milhões em maio do ano passado, pela Instituição Financeira de Desenvolvimento, e ainda não há nenhum fundo constituído em resultado desse concurso", afirma Nuno Gaioso Ribeiro, presidente da Associação Portuguesa de Capital de Risco e de Desenvolvimento (APCRI).

Há por isso ainda €655 milhões de fundos europeus disponíveis para aplicar em capital de risco em Portugal até 2020. "O processo foi muito lento, numa altura em que o mercado está sem liquidez e em que esta é apenas uma pequena fatia dos recursos que podiam estar afetos à engenharia financeira", acrescenta. "Além de que não houve segmentação. Entraram neste concurso operadores de grande porte, como a ECS Capital, mas também três ou quatro operadores novos, que não estavam registados anteriormente. E o tipo de restrições e condicionantes desse capital público não é atrativo para os investidores privados, que entram em cofinanciamento", aponta o presidente da associação.

Além do problema de liquidez de capital para investir, Portugal tem hoje um problema de segmentação da oferta, segundo Nuno Gaioso Ribeiro. "Mais do que dois terços dos ativos sob gestão estão em fundos de reestruturação, e não há capital disponível suficiente para investir em processos de consolidação sectorial, de expansão internacional ou novos negócios", afirma. O problema estrutural na indústria é o afunilamento das fontes de investimento, em que "os recursos financeiros são reduzidos, há um número limitado de fundos de pensões, o fundo de estabilização da Segurança Social não investe ou investe pouco na indústria e não existe uma tradição dos investidores de aforro e de poupança de investirem no sector, sendo que têm penalizações regulatórias por causa desse mesmo investimento".

Portugal em contraciclo

De acordo com um estudo da consultora Deloitte, encomendado pela APCRI para fazer um diagnóstico do sector do capital de risco em Portugal, "nos últimos três anos, de 2014 a 2017, houve cerca de €150 milhões de fundos angariados, valor que representa uma redução e está manifestamente em contraciclo com o que tem acontecido na Europa, em que houve uma redução do capital levantado no período pós-crise de 2008, mas que tem aumentado significativamente nos últimos anos", refere o líder da associação. Portugal tem assistido a uma redução dos fundos angariados. Em 2012, por exemplo, houve €790 milhões levantados e, em 2011, €576 milhões.

Para Nuno Gaioso Ribeiro, "isto quer dizer que, dos €4,1 mil milhões de ativos sob gestão em Portugal, a parcela mais significativa, maioritária e que deve corresponder a dois terços dos ativos sob gestão não se refere a fundos constituídos com liquidez e maturidade empresarial, mas sim a fundos de reestruturação, ou seja, que utilizaram os Non Performing Loans (NPL) da banca".

Nos últimos dez anos, conclui o estudo da Deloitte, foram levantados cerca de €3,4 mil milhões em Portugal, sendo os bancos e o Estado os principais financiadores. Os cinco operadores em Portugal (ECS, Oxy Capital, Caixa Capital, Explorer e Portugal Ventures) gerem cerca de 60% a 70% dos fundos levantados, destacando-se os que têm sob gestão fundos de reestruturação. "Temos muitos operadores, mas de muito pequena dimensão. Apenas cinco operadores têm dois terços do volume de ativos sob gestão, e depois vemos microdimensão em muitos operadores. A diversidade é boa, mas para a dimensão do nosso mercado e dos ativos sob gestão temos operadores a mais", comenta o também sócio fundador e presidente do Conselho de Administração da Capital Criativo.

Há ainda sociedades gestoras que têm fundos domiciliados noutras geografias, como o Luxemburgo ou o Reino Unido. São os casos de fundos da Vallis, da Magnum Partners Capital, da Pathena, da H Capital e da Explorer (com o fundo Discovery), identifica o estudo. Isto acontece porque, "apesar de o sistema fiscal português ser relativamente atrativo para investidores em capital de risco, Portugal tem a tradição de fazer alterações fiscais nas discussões orçamentais. O problema não tem a ver com a competitividade do sistema fiscal, mas sim com a estabilidade do mesmo. Ao passo que outras jurisdições dão garantia de estabilidade fiscal, ou seja, de que não alterarão para pior o sistema fiscal", explica o presidente da APCRI.

No resto da Europa

Os fundos levantados na Europa entre 2007 e 2015 totalizam €471 mil milhões.

Reino Unido, França, Suécia, Alemanha e Holanda lideram, com 83% dos fundos levantados.

O volume de fundos levantados no Sul da Europa é pouco significativo no contexto europeu, totalizando €24 mil milhões.

A crise financeira fez reduzir o volume entre 2009 e 2012.

O período 2013-2015 registou estabilidade, com equivalência entre o volume de fundos levantados, investidos e desinvestidos
Nuno Gaioso Ribeiro, da Associação de Capital de Risco, diz que Portugal está em contraciclo com a Europa.

Diagnóstico

5 operadores de capital de risco em Portugal gerem entre 60 a 70% dos fundos sob gestão
4,1 mil milhões de euros é o volume de ativos sob gestão em Portugal.
6 mil milhões de euros é o volume de ativos sob gestão, considerando os fundos de capital de risco de sociedades gestoras portuguesas que estão domiciliadas noutras geografias.

20 por cento do crescimento (ao ano) dos fundos sob gestão têm sido suportados pelas operações de reestruturação de dívida.
3,4 mil milhões de euros foram levantados em Portugal nos últimos dez anos, sendo os bancos e o Estado os principais financiadores.

150 milhões de euros é o volume de ativos levantados nos últimos três anos.
750 milhões de euros é o montante que o IFD tem para investir até 2020, fruto de fundos comunitários, dos quais apenas €95 milhões foram a concurso até agora.

34 é o número de sociedades gestoras de fundos de investimento que operavam em Portugal, de acordo com o Relatório Anual da Atividade de Capital de Risco de 2015, divulgado em agosto do ano passado.

Fonte: Expresso
Data: 26/8/2017