Algarve pelas costuras no próximo Verão

A região aplaude os números, mas não se deixa surpreender. Apesar de as unidades de alojamento estarem praticamente cheias no Verão, a preocupação está nos restantes meses. Há quartos e um destino que se quer vender além do sol e praia.

"Com muita procura", "resta apenas um quarto", "falhou por pouco! O nosso último quarto disponível foi reservado". Basta uma pesquisa no portal de reservas Booking para perceber como vai andar o Algarve este Verão: cheio.

"Os hotéis nesta altura estão sempre cheios", desdramatiza Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA). Então o que se está a acontecer a Sul? Uma antecipação das reservas.

Em termos homólogos, as reservas estão a crescer "30 a 35%" na região. "As pessoas estão a marcar com maior antecedência, a tendência era marcar em cima da hora", explica Viegas. Os números da Booking confirmam: de Junho a Agosto, as taxas de ocupação variam entre os 70 e os 76% nos 2.748 alojamentos do Algarve registados na plataforma. E no topo da página um aviso: "os preços podem ser mais altos que o normal".

É possível, perante este cenário, traçar algumas perspectivas. A AHETA espera que, no final do ano, o Algarve tenha assistido a um crescimento de 4% na taxa de ocupação e de 6% no volume de negócios. "A instabilidade da concorrência está a fazer com que haja deslocação de fluxos turísticos", justifica.

Ryanair apressa turistas

A companhia "low cost" Ryanair foi uma das primeiras a dar conta deste panorama, ao aconselhar os clientes a fazer reservas para Portugal até ao final de Fevereiro.

Em Março, os últimos quartos no Algarve deveriam estar vendidos, advertiu o director de marketing da transportadora, Kenny Jacobs. O aviso era dirigido, sobretudo, aos clientes britânicos e alemães, tendo em conta a instabilidade em destinos como Turquia ou Tunísia. Portugal – e concretamente o Algarve, pela sua oferta de "resorts" – surgiu como alternativa.

"Acho que a Ryanair, legitimamente, está a aproveitar uma situação que se verificou noutros sítios para fazer a sua promoção", diz Elidérico Viegas. É uma das 30 companhias a voar para o aeroporto de Faro, que apresenta conexões para uma centena de destinos.

Um recorde sem festejos

"Os dados apontam para um ano nunca antes visto", alegra-se Desidério Silva perante a subida na procura. Contudo, o presidente do Turismo do Algarve recorda que, no Verão, as unidades de alojamento estão cheias no Algarve. O problema são os meses que se seguem.

"Julho e Agosto estão sempre cheios. Interessa é ter produto e oferta para os restantes meses de Outubro a Maio", lembra. A sazonalidade tem vindo a esbater-se com a aposta em produtos como o turismo de natureza ou desportivo.

"O Algarve está a colher o trabalho conjunto de hoteleiros e entidades regionais", posiciona, perante o ritmo de antecipação de reservas. Para que a colheita tenha sucesso, há uma meta: atingir uma taxa de ocupação anual de 65%. Só a partir dessa fasquia, a região tem motivos para respirar de alívio e ser sustentável. Em 2015, o indicador não chegou aos 62%, recorda Desidério Silva.

A contribuir para esse objectivo está uma maior variedade dos mercados emissores. Aos tradicionais Reino Unido, Alemanha e Holanda juntam-se França, Bélgica, Luxemburgo e Suíça.

Ainda há quartos

O grupo Vila Galé conta com nove hotéis no Algarve. Ao Negócios, Gonçalo Rebelo de Almeida confirma que as reservas para Julho, Agosto e Setembro estão, nesta altura, cerca de 30% acima do mesmo período de 2015.

"Verificamos que os clientes estão a reservar mais cedo, embora ainda haja disponibilidade nos nossos hotéis. A ocupação nas unidades do Algarve está bem encaminhada, mas ainda temos quartos disponíveis", elucida o administrador.

O mesmo não pode dizer o Monte da Quinta Resort, que está completo em Julho e Agosto. A porta-voz Célia Crato esclarece que esta é uma "ocupação normal" e justifica o resultado com a estratégia de vendas.

Já Gonçalo Rebelo de Almeida aborda a insegurança noutros destinos, mas destaca o reconhecimento de Portugal enquanto destino turístico como o factor que mais pesa. "Perante estes números, mantemos a perspectiva de ter um ano 2016 positivo, com um crescimento a rondar os 7%", conclui o responsável.

Contactada pelo Negócios, a Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP) diz não ter dados de antecipação à próxima época alta.

Fonte: http://www.jornaldenegocios.pt/
Data: 02/03/2016