Carros sem condutor revolucionam seguros

A chegada dos carros sem condutor e ligados à internet vai ter grande impacto no negócio das seguros porque podem surgir outros atores, por exemplo operadores de telecomunicações ou empresas de serviços (utilities), que podem fazer apólices de acordo com o comportamento dos condutores”, afirma Gionata Tedeschi, responsável pela estratégia digital da Accenture para a Europa, África e América Latina (EALA).

Uma mudança que pode ter impacto no esbatimento das fronteiras entre os competidores tradicionais e no aparecimento de novos concorrentes. “Os carros conectados terão impacto nas cidades inteligentes e ao aparecimento de competidores over the top como a Google. Por exemplo, a Apple já está a pensar no automóvel como uma extensão do iPhone”, refere este especialista da Accenture que esteve recentemente em Portugal para participar como orador do Fórum Expresso XXI.

“Estamos no meio de uma mudança radical. Só as empresas mais ágeis e flexíveis que fizeram a transformação digital vão sobreviver”, considera Gionata Tedeschi. “O processo de transformação digital das empresas deve ser como quem viaja numa autoestrada: a passagem deve ser eficaz e rápida. Se formos por atalhos o mais certo é não chegarmos a tempo”, defende. “De igual modo, as empresas que querem colher os benefícios da revolução digital devem avançar de forma decidida para evitar que os atalhos dos sistemas de informação legados (a velha informática) impeçam que essa transformação se faça”, acrescenta este especialista .

Por isso, não surpreende que este exigente processo de transformação digital na Europa esteja a acontecer a diferentes velocidades, consoante os países e sectores de atividade. Mesmo assim, Gionata Tedeschi constata que no último ano na Europa se regista um aumento de velocidade de adoção da tecnologia digital em muitas empresas. “Nota-se que estão a fazer um esforço de preparação e a ganhar agilidade”, defende, por haver maior consciência dos impactos positivos para o desempenho do negócio. Um estudo recente da Accenture indica que a utilização das tecnologias poderá gerar um aumento de 2 mil milhões de dólares na economia mundial até 2020.

Mas o processo de transformação para o digital é “exigente” e implica “mudar a mentalidade dos executivos de topo e dos trabalhadores”. “Temos feito inquéritos sobre a atitude dos trabalhadores nesta matéria e constata-se que a perceção em relação ao impacto da tecnologia na flexibilidade da empresa é agora mais positiva”, observa Gionata Tedeschi.

Para que o processo de digitalização possa avançar em velocidade de cruzeiro, este responsável da Accenture defende como boa solução a criação da função de CDO (Chief Digital Officer) com “poderes para fazer a ponte e ser um catalisador para ativar a jornada de digitalização”. Mas, adverte, “o cargo de CDO não assegura só por si que a transformação digital seja um sucesso”.

Gionata Tedeschi identifica três passos fundamentais para uma organização se tornar digital. “Além de um modelo de governação e o envolvimento da gestão de topo, deve ser criado um ‘motor’ de transição dos sistemas legados para o mundo digital”. Em terceiro lugar, este especialista diz que deve ser criado na empresa “um farol de inovação que faça um varrimento constante do que está a acontecer no exterior”. Dá como exemplos, “a aposta na inovação aberta” e “na colaboração com startups e universidades, de forma a envolver talento a pedido e a estar focada em projetos”. “A transição dos sistemas legados para o digital passa por este ecossistema exterior”, sublinha Gionata Tedeschi.

EXPERIÊNCIA AJUDA

Por outro lado, os projetos de transformação digital são complexos e implicam investimento. “É necessário ter orçamento para formar e recrutar talento (incluindo quadros seniores) de várias disciplinas”, diz o diretor geral de estratégia da Accenture. “É preciso ter um efeito combinatório entre novas tecnologias e gestores seniores que saibam combinar diferentes disciplinas”, recomenda Gionata Tedeschi. E dá um exemplo concreto na área da distribuição. “Se combinarmos no mesmo projeto as tecnologias de internet das coisas e de blockchain podemos passar a ter contratos inteligentes, em que há informação em tempo real sobre os bens que foram entregues ao cliente e os pagamentos que já foram feitos, controlo de qualidade, etc. Estamos a falar de um projeto complexo que exige competências multidisciplinares e também o envolvimento de várias funções da empresa envolvidas na cadeia de valor (comerciais, apoio ao cliente, finanças, aprovisionamento...)”.

Qual é o papel de um país como Portugal? “É importante que o Governo, as universidades e as empresas estejam focados em fazer parte desta jornada. Portugal deve passar de exportador a importador de talento”, defende Gionata Tedeschi.

Para as pequenas e médias empresas (PME) a transformação digital e a indústria 4.0 podem ser paradoxalmente uma ameaça e uma enorme oportunidade. “As PME podem estar ameaçadas se não se adaptarem e não agirem, mas podem beneficiar das oportunidades que as empresas plataforma e o comércio eletrónico lhes proporcionam. Quem não aproveitar as oportunidades do mercado global, alguém o vai fazer. Quem não agir, perde”, alerta Gionata Tedeschi.
Pala

Fonte: http://expresso.sapo.pt/
Data: 29/07/2017