"Inovar é mais um desejo do que uma realidade"

Fernando Trias de Bes é especialista em inovação. Ao Negócios, salienta que as empresas enfrentam uma dualidade entre inovar e rentabilizar os investimentos já realizados.

Fernando Trias de Bes é economista e especialista em inovação. Veio em Março, a Portugal, a convite da consultora imobiliária Era para falar de liderança. Na sua opinião, para se ser um bom líder é necessário ter visão e saber delegar.

Que características tem de ter um bom líder?
Creio que um bom líder tem, sobretudo, de ter uma visão muito clara do que quer e ter a capacidade de transmiti-la a todos os colaboradores. E, a partir daí, saber delegar. Um líder é uma pessoa que orienta, que marca a direcção e que depois sabe confiar e delegar. Estes são os dois elementos essenciais: visão e capacidade de delegar.

É especialista em inovação. As empresas conhecem o que a inovação pode fazer por elas - em Portugal e em Espanha?
Creio que sabem. O que se passa é que, durante muito tempo, a inovação esteve vinculada à tecnologia, à investigação e desenvolvimento e aos departamentos mais técnicos. A inovação como área de gestão é relativamente recente. É conhecida, mas como área de gestão empresarial não tem muitos anos. Isto também se passou com o marketing ao princípio. No anos 60, as empresas sabiam [que o marketing] ia ser uma área transcendental para os seus negócios mas faltavam profissionais, agências de publicidade e profissionais de marketing. Passaram muitos anos até que, pouco a pouco, as empresas foram-se dotando da capacidade de gerir a área comercial. Creio que é isso que se está a passar com a inovação. Por outro lado, há mais um factor: as empresas enfrentam uma dualidade entre inovar e rentabilizar os investimentos que já são realidade. Muitas vezes, a resistência à inovação é [porque] os directores tentam aproveitar ao máximo os investimentos que já foram realizados. É verdade que na Península [Ibérica] há muito o desejo de inovar. Mas é mais um desejo que uma realidade.

Como se pode mudar isso?
Não é simples. Com formação - e, por outro lado, [é preciso] também que as empresas comecem a reconhecer a necessidade de se dotarem de recursos ou pessoas exclusivamente dedicadas à inovação de uma maneira transversal a toda a empresa. Por exemplo, em muitas empresas não há processos de inovação. Têm processos para aprovar algumas despesas ou para aprovar uma campanha de publicidade, mas não têm processos para um projecto de inovação. Creio que é uma mescla entre tempo, entre tentativas e erros e ir estabelecendo sistemas de gestão da inovação.

À economia e às empresas portuguesas falta-lhes muita inovação?
Agora não inovar é suicídio. O problema que é existiram dois grandes movimentos na economia mundial: a globalização, que acelerou de uma maneira exponencial, e as novas tecnologias, que aceleraram a globalização. Sobretudo o que estas fizeram foi que, em muitos sectores de actividade, os modelos de negócio actuais ficaram obsoletos a uma velocidade enorme. Neste momento, a inovação é fundamental. O que se passa é que é um tipo de inovação ao qual não estamos habituados. Não é uma inovação fácil e é um caminho que também não sabemos aonde vai dar. É certo que faz falta muita inovação, mas também é certo que o grau de incerteza é muito elevado. Estamos numa época muito difícil para os gestores porque estamos obrigados a mudar, mas é preciso arriscar muito.

"As empresas enfrentam uma dualidade entre inovar e rentabilizar os investimentos que já são uma realidade."
FERNANDO TRIAS Especialista em inovação

Como é que os gestores podem fazer esse equilíbrio?
Penso que têm de assumir e entender que, provavelmente, qualquer decisão que tomem, terão de ter a capacidade de a alterar ao fim de algum tempo. A inovação não é uma coisa estática. É uma coisa absolutamente dinâmica. Inovar já não é só num novo produto, numa nova marca. Penso que a única solução, e é o que converte companhias em inovadoras - companhias inovadoras não são as que fazem uma inovação, mas as que vão adaptando o produto ou serviço com o passar do tempo - é a liderança.

Escreveu um livro que se chama o "O Livro Negro do Empreendedor". Quais são os erros que levam os empreendedores a falhar muito?
Os que mais me surpreenderam foram dois. O primeiro é que realmente a ideia é importante, mas não o mais importante. É mais importante a implementação. É muito melhor uma ideia medíocre com uma implementação brilhante, que uma ideia brilhante cuja implementação é, muitas vezes, muito complicada. O segundo foi - e é um tema que se fala pouco nas escolas de negócios - a importância de como se escolhem os sócios. Esse é o motivo número um ou número dois dos casos que não funcionaram. Tiveram problemas de relacionamento pessoal com os sócios. Problemas porque não foram definidos bem os papéis de cada um. Não tinham problemas no mercado ou com os clientes.

PERFIL

Economista e escritor

Fernando Trias de Bes é espanhol e tem 49  anos. Tem formação na área de economia, com especialização em marketing e inovação. É autor de vários livros. Algumas das obras são sobre economia, marketing, criatividade e empreendedorismo. Outras são de ficção. Escreve, por vezes, opinião para jornais espanhóis, como o La Vanguardia.

Fonte: 
http://www.jornaldenegocios.pt/
Data: 19/04/2016